O Mal Menor ou o Bem Maior?

Quase tudo na vida exige escolhas e as escolhas raramente são fáceis. A dificuldade aumenta quando nos vemos obrigados a optar entre o melhor de dois males.

Não deveria ser ao contrário? Não deveríamos poder escolher, ao menos uma vez na vida, o pior de dois bens ou o bem maior?

Sempre que me vejo forçado a uma escolha entre o melhor de dois males, sinto que a minha liberdade foi falsificada, como se estivesse a exercer um direito contrafeito. Mas também devo dizer (e depois terei que explicar) que constatei que essa sensação, afinal, só é nova para mim. Há séculos que a filosofia debate esta tensão: devemos agir de acordo com as consequências (mal menor)? Ou devemos agir de acordo com princípios universais, independentemente das consequências (bem maior)?

Kant vs. Mill: Duas Éticas, Dois Caminhos

Esta dicotomia resume-se bem nas visões de dois gigantes da ética: John Stuart Mill, defensor do utilitarismo, e Immanuel Kant, expoente da ética deontológica. Ambos viveram há mais de dois séculos, mas continuam a oferecer respostas profundamente relevantes aos nossos dilemas éticos atuais.

Mill defende que uma ação é moralmente boa se promover a felicidade do maior número possível de pessoas.

Kant, por outro lado, afirma que só a boa vontade, guiada por dever e por princípios universais, pode ser considerada boa — independentemente do resultado final.

Estes modelos encontram aplicação direta em exemplos práticos.

O Caso dos Medicamentos Genéricos: Uma Leitura Utilitarista

Tomemos como exemplo a introdução de medicamentos genéricos. São mais baratos, contêm o mesmo princípio ativo e tornam a saúde mais acessível. Defendem a sua utilização o Estado, os utentes e até as farmácias (que ganham com margens mais vantajosas). Quem perde? A indústria farmacêutica, que luta para manter o monopólio dos medicamentos de marca.

Segundo a ética de Mill, esta escolha é óbvia: se mais pessoas beneficiam — com acesso mais fácil à saúde e a custos mais baixos — a decisão de utiliar os genéricos é moralmente correta.

Para um kantiano, porém, a análise é outra. A introdução dos genéricos só seria moral se fosse motivada por um princípio universal e não por um interesse ou benefício coletivo. E aqui reside uma dificuldade: o critério kantiano nem sempre oferece soluções viáveis no nosso quotidiano. Já o critério de Mill, mais flexível, ajuda a tomar decisões complexas com pragmatismo.

Voltando a Kant

No entanto, há situações em que o utilitarismo tropeça. Sacrificar um inocente para salvar muitos? Um utilitarista poderá dizer que sim. Kant, jamais concordaria. Para ele, nenhuma vida pode ser usada como meio ao serviço de um fim, por mais nobre que esse fim pareça.

Vejamos alguns exemplos:

– Na política: devemos escolher para nos representar o “menos mau” entre dois candidatos? Kant diria que não. A dignidade do eleitor exige integridade — mesmo que isso signifique forçar novas eleições.
– Na segurança: devemos aceitar a violação da privacidade em nome da segurança nacional? Para Kant, a resposta é clara: a dignidade e a liberdade são invioláveis.
– Na denúncia ética: de tomarmos conhecimento de uma violação grave de direitos, como o uso indevido dos nossos dados pessoais, temos o dever de a denunciar? Kant não teria quaisquer dúvidas: claro que sim! mesmo que isso nos custe a liberdade.

A ética kantiana é, pois, bastante mais exigente e até radical. Obriga-nos a pensar, a não seguir a maioria, a respeitar-nos enquanto pessoas e a agir por dever, não por conveniência.

E o Futuro?

É evidente que o modelo dominante é o de Mill. Vivemos num mundo guiado por resultados, metas, eficiência. Mas talvez estejamos a assistir a uma viragem.

O “ter” começa, timidamente, a dar lugar ao “ser”. Cada vez mais, as empresas adotam códigos de conduta, princípios éticos e políticas de responsabilidade social e as redes sociais funcionam como vigilantes morais — exigindo transparência, respeito e justiça. Podemos ver aí sinais positivos, alguma luz moral. Depois da Declaração Universal dos Direitos Humanos, talvez esteja a chegar a hora da sua concretização real — nas empresas, nos governos, nas relações pessoais. E isso é profundamente kantiano.

Uma Esperança Ética

Talvez o futuro nos traga uma nova síntese. Um mundo onde possamos ser um pouco mais kantianos — mais atentos à dignidade humana e menos dispostos a pactuar com o mal menor, em que a ética não sirva apenas para justificar decisões difíceis, mas para inspirar a construção de uma humanidade mais consciente e corajosa. Merecemos mais e, sobretudo, merecemos melhor.

Será pedir demasiado? Talvez, mas sonhar não custa.

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