Culpados de Tudo e de Coisa Nenhuma

Alguém que se sente culpado por todos os males do mundo é uma espécie de hipocondríaco moral. Sentir culpa sem comparticipação faz tanto sentido quanto sentir-se vítima sem ser objeto de nenhuma ação. Em ambos os casos, o sujeito coloca-se na posição de juiz, com a diferença de que, no primeiro, opta por se condenar e, no segundo, por se desresponsabilizar.

É sempre mau negócio ser juiz em causa própria. Nenhum juiz a sério, ou seja, imparcial — encontrará qualquer tipo de culpa objetiva inerente a quem, por exemplo, se considere culpado por ser humano, europeu, branco, homem, heterossexual e por viver no século XXI. Da mesma maneira, nenhum juiz deixará de condenar quem se apresente meramente como vítima de um sistema, da sociedade, da maioria, de uma cultura ou de qualquer determinismo rígido que o impeça de fazer (ou deixar de fazer) algo que se imponha pela ética.

Na verdade, ninguém deveria ser condenado ou declarado inocente apenas pelo que sente. Ninguém é apenas o que sente. Uma pessoa — qualquer pessoa — é uma parte ínfima do universo; é medo, esperança, coragem, dor, amor e memória, mas é também o que consegue racionalizar: intenção, motivação, escusa, o que projeta e o que efetivamente alcança.

Ter poder de escolha implica ser responsável, mas na justa medida. Isso representa um fardo já de si suficientemente pesado, mas não tão pesado que impeça o caminhar.

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