Com muita frequência, o nosso egoísmo impede-nos de penetrar na realidade. Existimos nela, somos parte dela, mas é como se nos fosse exterior. A tecnologia agrava este solipsismo porque permite que te isoles. Vais na rua e não ouves — não era o ouvido o órgão da sabedoria? Por estranho que pareça, o ouvido não existe para ouvir música. Existe para nos conectar com o mundo, não para nos isolar ou sequer para nos proteger dele. A música que temos que ouvir é a que está na realidade, não numa organização depurada e harmoniosa de sons. Será por isso que não conseguimos descrever o que acontece? De certa maneira, para nos protegermos, aprendemos o contrário. Em vez de aprendermos a ouvir, a ver, a saborear, a tocar, a sentir… aprendemos o que não está lá. Também aqui introduzimos um muro entre nós e a realidade que nos impede de fazermos parte do que acontece.

